1. Objetivo final da técnica histológica
O objetivo final é levar ao microscópio ótico (m.o.) uma amostra em que:
- Os tecidos estão preservados.
- Mantêm a mesma arquitetura que apresentavam in vivo.
- Mantêm, tanto quanto possível, a mesma composição química in vivo.
Quando a imagem não é equivalente à real → trata-se de um artefacto, exigindo interpretação cuidadosa.
2. Fixação – conceito geral
- A fixação é a primeira fase do processamento histológico.
- É uma fase de preparação para as etapas seguintes (desidratação, diafanização, inclusão).
- Envolve uma série complexa de eventos químicos, diferente para cada tipo de substância presente nos tecidos.
Função-chave:
Interromper a degradação orgânica (vida → morte → decomposição), de modo a:
- Prevenir autólise e putrefação.
- Conservar arquitetura e composição tecidular.
- Garantir que a imagem histológica é equivalente à real.
Tecidos mais sensíveis:
- Tecidos ricos em enzimas → fígado, rins, cérebro, pâncreas, etc.
3. Fenómenos de degradação pós-morte
3.1. Definição de morte
- Nível metabólico a partir do qual as células não conseguem recuperar as funções vitais.
3.2. Autólise
- Autodigestão enzimática celular, após a morte.
- Envolve rutura da membrana dos lisossomas e saída das enzimas para o citoplasma.
Aspeto microscópico (M.O.):
- Citoplasma tumefeito, com aspeto de massa granular homogénea.
- Citoplasma incapaz de ser corado (“washed-out”).
- Difusão de substâncias intracelulares importantes (ex.: glicogénio).
- Separação (“descamação”) entre epitélio e membrana basal.
3.3. Putrefação
- Degradação dos tecidos por toxinas e enzimas bacterianas.
- Bactérias geralmente saprófitas.
- Complementa o efeito da autólise até destruição celular completa.
3.4. Fatores que influenciam autólise e putrefação
- Localização e natureza do tecido:
- Tecidos com muitas enzimas digestivas → ex.: pâncreas.
- Tecidos com grande quantidade de microrganismos → ex.: intestino.
- Temperatura:
- Quanto maior a temperatura ambiente, maior a velocidade de autólise e putrefação.
- Temperatura ótima para atividade enzimática e bacteriana: 37–42 ºC.
4. Objetivos da fixação tecidular
A fixação tem como objetivos principais:
- Prevenir a autólise (inativar enzimas celulares).
- Prevenir a contaminação bacteriana (efeito microbicida).
- Evitar alterações de forma e volume durante o processamento (retrações, distorções).
- Permitir coloração adequada dos cortes histológicos.
- Manter os tecidos o mais semelhante possível ao estado “in vivo”, sem perdas ou rearranjos importantes dos seus componentes (incluindo lípidos – exigem precauções especiais).
É sempre um compromisso: fixar bem, mas sem alterar demasiado a morfologia.
5. Princípios gerais da fixação
- Não existe método universal de fixação
- Um fixador adequado para um tecido pode não ser para outro.
- Fixação ≠ conservação tecidular eterna
- Nem todos os fixadores conservam o tecido indefinidamente.
- O formol é, além de fixador, também um bom conservante.
- Defeitos de fixação dificilmente são corrigidos
- Uma má fixação acompanha todo o processo.
- Graves defeitos na fixação podem inviabilizar o estudo histológico
- → comprometem o diagnóstico.
6. Fixação tecidular – componente proteico
- As proteínas estruturais, quando fixadas, tornam-se insolúveis, conferindo:
- Consistência mecânica ao tecido.
- Condições para suportar o processamento seguinte (desidratação, corte, etc.).
- A microanatomia dos tecidos mantém-se, permitindo o diagnóstico histopatológico.
7. Classificação da fixação – mecanismos de atuação
7.1. Fixação física
Objetivo: deter autólise e putrefação sem reagentes químicos, através de alterações físicas.
- Calor
- Congelação
- Micro-ondas
Congelação
- Ideal para estudos morfológicos e funcionais, porque preserva:
- Estrutura antigénica
- Atividade enzimática
- Deve ser instantânea para evitar formação de microcristais de gelo intracelular (que destroem a estrutura).
- Métodos:
- Azoto líquido
- Usado para biópsias e material para extração de DNA.
- Não é o mais adequado para cortes histológicos de rotina.
- Isopentano a -50 ºC
- Fragmentos até cerca de 3 cm² / 3 mm de espessura
- Congelação muito rápida (~10 segundos).
- Conservação em arcas a –70 ºC.
7.2. Fixação química
Objetivo: desnaturar e insolubilizar proteínas tecidulares, bloqueando:
- Autólise (por inativação enzimática).
- Crescimento bacteriano.
Características fundamentais de um bom fixador químico:
- Capacidade de bloquear de imediato a autólise (rápida desnaturação proteica).
- Efeito microbicida eficaz.
- Evitar retrações e distorções que alterem a arquitetura.
- Provocar alterações que favoreçam inclusão, corte e coloração.
8. Regras gerais para utilização de fixadores líquidos
- Colocar o tecido no líquido fixador o mais rapidamente possível após a colheita.
- Fragmentos de tecido com cerca de 2–3 mm, para permitir rápida difusão.
- Volume do fixador: cerca de 10 vezes o volume do fragmento.
- Pressão osmótica do fixador ≈ do tecido (geralmente com soluções salinas equilibradas).
- pH do fixador deve aproximar-se do pH fisiológico (neutro), exceto quando se usam fixadores ácidos específicos.
- Tempo de fixação é específico para cada fixador; o tempo máximo não deve ser ultrapassado.
9. Fixadores químicos em Anatomia Patológica – aldeídos
9.1. Formaldeído (formol 10% tamponado)
- Fixador mais utilizado na histologia convencional de microscopia ótica (parafina, coloração H&E).
- Fixador mais barato e amplamente disponível.
- Único fixador que proporciona conservação tecidular adequada a longo prazo.
- Não endurece excessivamente os tecidos → bom para armazenar biópsias e peças cirúrgicas.
- Provoca retracção tecidular reduzida.
- Velocidade de penetração intermédia: cerca de 1 mm/hora → adequado para peças cirúrgicas.
- Fixador adequado para tecido adiposo e lípidos em geral.
- Compatível com a maioria das colorações de rotina e especiais.
Influência da temperatura:
- A velocidade de fixação por formol pode ser:
- Atrasada ou
- Acelerada
- pela temperatura (mais quente → mais rápida, mas com maior risco de artefactos).
Tempo de fixação completo a temperatura ambiente (RT):
- Aproximadamente 36 horas.
Importância imunohistoquímica:
- A fixação em formol 10% tamponado faz-se através de ligações cruzadas entre proteínas, mantendo os constituintes celulares nas suas relações “in vivo”.
- A antigenicidade não se perde completamente, o que é essencial para:
- Métodos imunoenzimáticos
- Imunofluorescência
Desvantagens do formaldeído
- Irritação severa da pele e dos olhos.
- Sensibilização por contacto respiratório e cutâneo.
- Necessidade de:
- Monitorização periódica dos níveis de exposição.
- Ventilação e exaustão adequadas.
- Sistema de esgoto adequado ou soluções comerciais para eliminação segura.
- Pode promover aparecimento de pigmentos formólicos (artefactos de fixação).
10. Artefactos de fixação
Definição:
- Imagens que não são equivalentes à realidade e são induzidas ao longo do processamento histológico, repetindo-se em preparações diferentes.
Principais tipos:
- Rupturas
- Retracções tecidulares
- Provocadas por graus diferentes de retração dentro do mesmo fragmento ao ser exposto ao fixador.
- Devidas, em grande parte, às diferenças de proporção de água existentes entre tecidos.
- Também relacionadas com diferenças de pressão osmótica entre o fixador e o tecido.
- Pigmentos formólicos
- Depósitos pigmentados, geralmente castanhos, resultantes da ação do formol em determinadas condições.
- Artefactos mecânicos e de superfície (visíveis nas imagens da apresentação):
- “Split artifact”: fendas ou separação de camadas (ex.: intestino).
- Pigmentação de superfície por reagentes (ex.: marcação de margens com nitrato de prata, tinta da china).
- Riscos (scratch lines) causados por faca danificada.
- Dobras, pregas ou cortes rasgados por má extensão.
- Contaminação por tecido de outro doente (fragmentos estranhos na lâmina).
Saber reconhecer artefactos é importante para não os confundir com lesões patológicas verdadeiras.
11. Descalcificação
- Tecido com depósitos de cálcio (por exemplo osso) não pode ser cortado em bloco de parafina antes de remover o cálcio.
11.1. Métodos
- A técnica mais comum é a utilização de ácidos, por exemplo:
- Ácido nítrico
- → Remove rapidamente grandes quantidades de cálcio.
- Tecidos mais frágeis (ex.: medula óssea) devem ser descalcificados com:
- Líquido de Bouin, que atua simultaneamente como fixador e descalcificador, sendo mais suave.
12. Processamento histológico de tecidos
Objetivo geral:
- Elaborar cortes histológicos finos para observação microscópica.
- Os tecidos são impregnados em parafina, com densidade semelhante à do tecido, permitindo cortes de rotina com espessura de 3 µm.
12.1. Etapas principais
- Desidratação
- Remoção gradual da água dos tecidos.
- Feita com uma série crescente de álcoois:
- 70% → 95% → 100%.
- Clarificação / diafanização
- Substituição do álcool por um solvente miscível com parafina, normalmente xilol, que torna o tecido translúcido.
- Impregnação
- O tecido é embebido no agente impregnante → parafina.
- Parafina utilizada geralmente com ponto de fusão 58–60 ºC.
12.2. Processadores de tecidos
- O processamento pode ser:
- Manual (em séries de cubas).
- Automático (processadores de tecidos: programam todos os passos).
Consequências de processamento inadequado:
- Área central esbranquiçada e insuficientemente endurecida no bloco:
- Possíveis causas:
- Tecido insuficientemente desidratado ou diafanizado.
- Impregnação com parafina insuficiente.
- Consequência: o bloco não poderá ser cortado corretamente.
13. Inclusão em parafina
Depois da impregnação:
- Os fragmentos são incluídos em moldes com parafina, formando blocos de parafina.
13.1. Aparelho de inclusão
- Possui:
- Zona de parafina líquida.
- Moldes.
- Zona aquecida para orientar o fragmento.
- Superfícies frias para solidificação rápida.
13.2. Orientação dos fragmentos – princípios gerais
- Os fragmentos impregnados devem ser incluídos em posição adequada ao tipo de corte desejado.
- Ter em conta que a parte inferior do bloco será a superfície de corte.
- A posição ideal deve ser determinada antes do processamento, podendo marcar-se a superfície oposta com tinta da china.
- O fragmento deve ser incluído ao mesmo nível, para garantir corte completo.
- Usa-se pinça para o pressionar contra a superfície do molde (com cuidado para não danificar o tecido).
13.3. Regras específicas de orientação
- Parte menos dura e mais pequena do tecido deve ser cortada em primeiro lugar
- → evita compressão dos tecidos duros sobre os brandos, reduzindo rugas.
- Deve haver uma margem de parafina à volta de todo o fragmento, para melhor suporte no bloco e durante o corte.
Estruturas tubulares
- Ex.: artérias, veias, canais deferentes, trompas de Falópio.
- Devem ser incluídas verticalmente, de modo que o corte atravesse toda a parede.
Tecidos com superfície epitelial
- Ex.: pele, intestino, bexiga, útero.
- Devem ser colocados de forma que o plano de corte atravesse todas as camadas e a superfície epitelial seja cortada por último (no topo), para:
- Minimizar a pressão e distorção na camada epitelial.
Múltiplos fragmentos epiteliais
- Devem ser incluídos lado a lado, com a mesma orientação da superfície epitelial.
- Podem ser marcados com tinta da china ou eosina alcoólica para identificação de margens.
Vários fragmentos em geral
- Devem ser incluídos lado a lado, com espaço entre eles, facilitando:
- Observação.
- Organização da lâmina.
Fragmentos pequenos retangulares
- Devem ser orientados de forma que o eixo mais longo fique perpendicular à faca:
- Minimiza distorção e enrugamento.
Estruturas císticas
- Devem ser incluídas de modo que a superfície de corte fique para baixo, para que o corte atravesse todas as camadas da parede cística.
Conclusão: os fragmentos devem ser alinhados e corretamente orientados no bloco – isto é fundamental para a qualidade dos cortes.
14. Microtomia – secções histológicas
- Com o micrótomo, os blocos são cortados em secções finas, normalmente de 3 µm.
14.1. Etapas da microtomia
- Desbaste do bloco
- Retira o excesso de parafina até expor o tecido.
- Corte histológico
- Produção de fitas de secções com espessura uniforme.
- Extensão
- Colocação das secções numa tina com água fria para eliminar pregas.
- Depois, transferência para água morna (banho de água) para melhor extensão.
- Secagem
- As secções estendidas na lâmina são colocadas em estufa a ~60ºC, cerca de 20 minutos, para:
- Derreter a parafina residual.
- Promover melhor aderência do tecido à lâmina.
14.2. Procedimentos complementares
- Identificação da lâmina com o número histológico.
- Limpeza do banho de água para evitar:
- Contaminação entre casos.
- Inclusão de fragmentos estranhos.
14.3. Artefactos associados à microtomia
- Faca danificada → riscos no tecido.
- Má extensão → dobras, cortes enrugados, descolamento de tecido.
- Desidratação ou fixação incorreta → cortes quebradiços, rasgados.
- Contaminação de lâminas com tecido de outro doente.
15. Cortes de congelação
- Usados para diagnóstico rápido (extemporâneo, intraoperatório).
15.1. Procedimento
- Fragmento é colocado num suporte com meio sintético (ex.: meio de congelação).
- É congelado rapidamente (ex.: em crióstato).
- O fragmento é cortado no crióstato.
- Os cortes são apanhados em lâmina de vidro por aderência.
- São fixados em álcool a 95%.
- Ficam prontos para coloração e avaliação rápida.
16. Pontos-chave para o teste
- Saber definir:
- Fixação
- Autólise
- Putrefação
- Processamento histológico
- Saber objetivos da fixação e princípios gerais (4 pontos).
- Decorar as regras de uso do fixador líquido (tamanho do fragmento, volume 10x, pH, osmolaridade, tempo).
- Dominar as características do formol 10% tamponado (vantagens, desvantagens, penetração, tempo, toxicidade).
- Perceber o mecanismo de formação de artefactos e ser capaz de os reconhecer.
- Saber descrever as etapas do processamento: desidratação → diafanização → impregnação → inclusão → microtomia.
- Conhecer as regras de orientação dos fragmentos na inclusão (tubulares, epiteliais, císticos, vários fragmentos).
- Saber em que contexto usar cortes de congelação e descalcificação.
