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1. Objetivo final da técnica histológica

O objetivo final é levar ao microscópio ótico (m.o.) uma amostra em que:

  • Os tecidos estão preservados.
  • Mantêm a mesma arquitetura que apresentavam in vivo.
  • Mantêm, tanto quanto possível, a mesma composição química in vivo.
Quando a imagem não é equivalente à real → trata-se de um artefacto, exigindo interpretação cuidadosa.

2. Fixação – conceito geral

  • fixação é a primeira fase do processamento histológico.
  • É uma fase de preparação para as etapas seguintes (desidratação, diafanização, inclusão).
  • Envolve uma série complexa de eventos químicos, diferente para cada tipo de substância presente nos tecidos.

Função-chave:

Interromper a degradação orgânica (vida → morte → decomposição), de modo a:

  • Prevenir autólise e putrefação.
  • Conservar arquitetura e composição tecidular.
  • Garantir que a imagem histológica é equivalente à real.

Tecidos mais sensíveis:

  • Tecidos ricos em enzimas → fígado, rins, cérebro, pâncreas, etc.

3. Fenómenos de degradação pós-morte

3.1. Definição de morte

  • Nível metabólico a partir do qual as células não conseguem recuperar as funções vitais.

3.2. Autólise

  • Autodigestão enzimática celular, após a morte.
  • Envolve rutura da membrana dos lisossomas e saída das enzimas para o citoplasma.

Aspeto microscópico (M.O.):

  • Citoplasma tumefeito, com aspeto de massa granular homogénea.
  • Citoplasma incapaz de ser corado (“washed-out”).
  • Difusão de substâncias intracelulares importantes (ex.: glicogénio).
  • Separação (“descamação”) entre epitélio e membrana basal.

3.3. Putrefação

  • Degradação dos tecidos por toxinas e enzimas bacterianas.
  • Bactérias geralmente saprófitas.
  • Complementa o efeito da autólise até destruição celular completa.

3.4. Fatores que influenciam autólise e putrefação

  • Localização e natureza do tecido:
  • Tecidos com muitas enzimas digestivas → ex.: pâncreas.
  • Tecidos com grande quantidade de microrganismos → ex.: intestino.
  • Temperatura:
  • Quanto maior a temperatura ambiente, maior a velocidade de autólise e putrefação.
  • Temperatura ótima para atividade enzimática e bacteriana: 37–42 ºC.

4. Objetivos da fixação tecidular

A fixação tem como objetivos principais:

  1. Prevenir a autólise (inativar enzimas celulares).
  2. Prevenir a contaminação bacteriana (efeito microbicida).
  3. Evitar alterações de forma e volume durante o processamento (retrações, distorções).
  4. Permitir coloração adequada dos cortes histológicos.
  5. Manter os tecidos o mais semelhante possível ao estado “in vivo”, sem perdas ou rearranjos importantes dos seus componentes (incluindo lípidos – exigem precauções especiais).
É sempre um compromisso: fixar bem, mas sem alterar demasiado a morfologia.

5. Princípios gerais da fixação

  1. Não existe método universal de fixação
  • Um fixador adequado para um tecido pode não ser para outro.
  1. Fixação ≠ conservação tecidular eterna
  • Nem todos os fixadores conservam o tecido indefinidamente.
  • O formol é, além de fixador, também um bom conservante.
  1. Defeitos de fixação dificilmente são corrigidos
  • Uma má fixação acompanha todo o processo.
  1. Graves defeitos na fixação podem inviabilizar o estudo histológico
  2. → comprometem o diagnóstico.

6. Fixação tecidular – componente proteico

  • As proteínas estruturais, quando fixadas, tornam-se insolúveis, conferindo:
  • Consistência mecânica ao tecido.
  • Condições para suportar o processamento seguinte (desidratação, corte, etc.).
  • A microanatomia dos tecidos mantém-se, permitindo o diagnóstico histopatológico.

7. Classificação da fixação – mecanismos de atuação

7.1. Fixação física

Objetivo: deter autólise e putrefação sem reagentes químicos, através de alterações físicas.

  • Calor
  • Congelação
  • Micro-ondas

Congelação

  • Ideal para estudos morfológicos e funcionais, porque preserva:
  • Estrutura antigénica
  • Atividade enzimática
  • Deve ser instantânea para evitar formação de microcristais de gelo intracelular (que destroem a estrutura).
  • Métodos:
  • Azoto líquido
  • Usado para biópsias e material para extração de DNA.
  • Não é o mais adequado para cortes histológicos de rotina.
  • Isopentano a -50 ºC
  • Fragmentos até cerca de 3 cm² / 3 mm de espessura
  • Congelação muito rápida (~10 segundos).
  • Conservação em arcas a –70 ºC.

7.2. Fixação química

Objetivo: desnaturar e insolubilizar proteínas tecidulares, bloqueando:

  • Autólise (por inativação enzimática).
  • Crescimento bacteriano.

Características fundamentais de um bom fixador químico:

  1. Capacidade de bloquear de imediato a autólise (rápida desnaturação proteica).
  2. Efeito microbicida eficaz.
  3. Evitar retrações e distorções que alterem a arquitetura.
  4. Provocar alterações que favoreçam inclusão, corte e coloração.

8. Regras gerais para utilização de fixadores líquidos

  • Colocar o tecido no líquido fixador o mais rapidamente possível após a colheita.
  • Fragmentos de tecido com cerca de 2–3 mm, para permitir rápida difusão.
  • Volume do fixador: cerca de 10 vezes o volume do fragmento.
  • Pressão osmótica do fixador ≈ do tecido (geralmente com soluções salinas equilibradas).
  • pH do fixador deve aproximar-se do pH fisiológico (neutro), exceto quando se usam fixadores ácidos específicos.
  • Tempo de fixação é específico para cada fixador; o tempo máximo não deve ser ultrapassado.

9. Fixadores químicos em Anatomia Patológica – aldeídos

9.1. Formaldeído (formol 10% tamponado)

  • Fixador mais utilizado na histologia convencional de microscopia ótica (parafina, coloração H&E).
  • Fixador mais barato e amplamente disponível.
  • Único fixador que proporciona conservação tecidular adequada a longo prazo.
  • Não endurece excessivamente os tecidos → bom para armazenar biópsias e peças cirúrgicas.
  • Provoca retracção tecidular reduzida.
  • Velocidade de penetração intermédia: cerca de 1 mm/hora → adequado para peças cirúrgicas.
  • Fixador adequado para tecido adiposo e lípidos em geral.
  • Compatível com a maioria das colorações de rotina e especiais.

Influência da temperatura:

  • A velocidade de fixação por formol pode ser:
  • Atrasada ou
  • Acelerada
  • pela temperatura (mais quente → mais rápida, mas com maior risco de artefactos).

Tempo de fixação completo a temperatura ambiente (RT):

  • Aproximadamente 36 horas.

Importância imunohistoquímica:

  • A fixação em formol 10% tamponado faz-se através de ligações cruzadas entre proteínas, mantendo os constituintes celulares nas suas relações “in vivo”.
  • antigenicidade não se perde completamente, o que é essencial para:
  • Métodos imunoenzimáticos
  • Imunofluorescência

Desvantagens do formaldeído

  • Irritação severa da pele e dos olhos.
  • Sensibilização por contacto respiratório e cutâneo.
  • Necessidade de:
  • Monitorização periódica dos níveis de exposição.
  • Ventilação e exaustão adequadas.
  • Sistema de esgoto adequado ou soluções comerciais para eliminação segura.
  • Pode promover aparecimento de pigmentos formólicos (artefactos de fixação).

10. Artefactos de fixação

Definição:

  • Imagens que não são equivalentes à realidade e são induzidas ao longo do processamento histológico, repetindo-se em preparações diferentes.

Principais tipos:

  1. Rupturas
  2. Retracções tecidulares
  • Provocadas por graus diferentes de retração dentro do mesmo fragmento ao ser exposto ao fixador.
  • Devidas, em grande parte, às diferenças de proporção de água existentes entre tecidos.
  • Também relacionadas com diferenças de pressão osmótica entre o fixador e o tecido.
  1. Pigmentos formólicos
  • Depósitos pigmentados, geralmente castanhos, resultantes da ação do formol em determinadas condições.
  1. Artefactos mecânicos e de superfície (visíveis nas imagens da apresentação):
  • “Split artifact”: fendas ou separação de camadas (ex.: intestino).
  • Pigmentação de superfície por reagentes (ex.: marcação de margens com nitrato de prata, tinta da china).
  • Riscos (scratch lines) causados por faca danificada.
  • Dobras, pregas ou cortes rasgados por má extensão.
  • Contaminação por tecido de outro doente (fragmentos estranhos na lâmina).
Saber reconhecer artefactos é importante para não os confundir com lesões patológicas verdadeiras.

11. Descalcificação

  • Tecido com depósitos de cálcio (por exemplo osso) não pode ser cortado em bloco de parafina antes de remover o cálcio.

11.1. Métodos

  • A técnica mais comum é a utilização de ácidos, por exemplo:
  • Ácido nítrico
  • → Remove rapidamente grandes quantidades de cálcio.
  • Tecidos mais frágeis (ex.: medula óssea) devem ser descalcificados com:
  • Líquido de Bouin, que atua simultaneamente como fixador e descalcificador, sendo mais suave.

12. Processamento histológico de tecidos

Objetivo geral:

  • Elaborar cortes histológicos finos para observação microscópica.
  • Os tecidos são impregnados em parafina, com densidade semelhante à do tecido, permitindo cortes de rotina com espessura de 3 µm.

12.1. Etapas principais

  1. Desidratação
  • Remoção gradual da água dos tecidos.
  • Feita com uma série crescente de álcoois:
  • 70% → 95% → 100%.
  1. Clarificação / diafanização
  • Substituição do álcool por um solvente miscível com parafina, normalmente xilol, que torna o tecido translúcido.
  1. Impregnação
  • O tecido é embebido no agente impregnante → parafina.
  • Parafina utilizada geralmente com ponto de fusão 58–60 ºC.

12.2. Processadores de tecidos

  • O processamento pode ser:
  • Manual (em séries de cubas).
  • Automático (processadores de tecidos: programam todos os passos).

Consequências de processamento inadequado:

  • Área central esbranquiçada e insuficientemente endurecida no bloco:
  • Possíveis causas:
  • Tecido insuficientemente desidratado ou diafanizado.
  • Impregnação com parafina insuficiente.
  • Consequência: o bloco não poderá ser cortado corretamente.

13. Inclusão em parafina

Depois da impregnação:

  • Os fragmentos são incluídos em moldes com parafina, formando blocos de parafina.

13.1. Aparelho de inclusão

  • Possui:
  • Zona de parafina líquida.
  • Moldes.
  • Zona aquecida para orientar o fragmento.
  • Superfícies frias para solidificação rápida.

13.2. Orientação dos fragmentos – princípios gerais

  • Os fragmentos impregnados devem ser incluídos em posição adequada ao tipo de corte desejado.
  • Ter em conta que a parte inferior do bloco será a superfície de corte.
  • A posição ideal deve ser determinada antes do processamento, podendo marcar-se a superfície oposta com tinta da china.
  • O fragmento deve ser incluído ao mesmo nível, para garantir corte completo.
  • Usa-se pinça para o pressionar contra a superfície do molde (com cuidado para não danificar o tecido).

13.3. Regras específicas de orientação

  • Parte menos dura e mais pequena do tecido deve ser cortada em primeiro lugar
  • → evita compressão dos tecidos duros sobre os brandos, reduzindo rugas.
  • Deve haver uma margem de parafina à volta de todo o fragmento, para melhor suporte no bloco e durante o corte.

Estruturas tubulares

  • Ex.: artérias, veias, canais deferentes, trompas de Falópio.
  • Devem ser incluídas verticalmente, de modo que o corte atravesse toda a parede.

Tecidos com superfície epitelial

  • Ex.: pele, intestino, bexiga, útero.
  • Devem ser colocados de forma que o plano de corte atravesse todas as camadas e a superfície epitelial seja cortada por último (no topo), para:
  • Minimizar a pressão e distorção na camada epitelial.

Múltiplos fragmentos epiteliais

  • Devem ser incluídos lado a lado, com a mesma orientação da superfície epitelial.
  • Podem ser marcados com tinta da china ou eosina alcoólica para identificação de margens.

Vários fragmentos em geral

  • Devem ser incluídos lado a lado, com espaço entre eles, facilitando:
  • Observação.
  • Organização da lâmina.

Fragmentos pequenos retangulares

  • Devem ser orientados de forma que o eixo mais longo fique perpendicular à faca:
  • Minimiza distorção e enrugamento.

Estruturas císticas

  • Devem ser incluídas de modo que a superfície de corte fique para baixo, para que o corte atravesse todas as camadas da parede cística.
Conclusão: os fragmentos devem ser alinhados e corretamente orientados no bloco – isto é fundamental para a qualidade dos cortes.

14. Microtomia – secções histológicas

  • Com o micrótomo, os blocos são cortados em secções finas, normalmente de 3 µm.

14.1. Etapas da microtomia

  1. Desbaste do bloco
  • Retira o excesso de parafina até expor o tecido.
  1. Corte histológico
  • Produção de fitas de secções com espessura uniforme.
  1. Extensão
  • Colocação das secções numa tina com água fria para eliminar pregas.
  • Depois, transferência para água morna (banho de água) para melhor extensão.
  1. Secagem
  • As secções estendidas na lâmina são colocadas em estufa a ~60ºC, cerca de 20 minutos, para:
  • Derreter a parafina residual.
  • Promover melhor aderência do tecido à lâmina.

14.2. Procedimentos complementares

  • Identificação da lâmina com o número histológico.
  • Limpeza do banho de água para evitar:
  • Contaminação entre casos.
  • Inclusão de fragmentos estranhos.

14.3. Artefactos associados à microtomia

  • Faca danificada → riscos no tecido.
  • Má extensão → dobras, cortes enrugados, descolamento de tecido.
  • Desidratação ou fixação incorreta → cortes quebradiços, rasgados.
  • Contaminação de lâminas com tecido de outro doente.

15. Cortes de congelação

  • Usados para diagnóstico rápido (extemporâneo, intraoperatório).

15.1. Procedimento

  1. Fragmento é colocado num suporte com meio sintético (ex.: meio de congelação).
  2. É congelado rapidamente (ex.: em crióstato).
  3. O fragmento é cortado no crióstato.
  4. Os cortes são apanhados em lâmina de vidro por aderência.
  5. São fixados em álcool a 95%.
  6. Ficam prontos para coloração e avaliação rápida.

16. Pontos-chave para o teste

  • Saber definir:
  • Fixação
  • Autólise
  • Putrefação
  • Processamento histológico
  • Saber objetivos da fixação e princípios gerais (4 pontos).
  • Decorar as regras de uso do fixador líquido (tamanho do fragmento, volume 10x, pH, osmolaridade, tempo).
  • Dominar as características do formol 10% tamponado (vantagens, desvantagens, penetração, tempo, toxicidade).
  • Perceber o mecanismo de formação de artefactos e ser capaz de os reconhecer.
  • Saber descrever as etapas do processamento: desidratação → diafanização → impregnação → inclusão → microtomia.
  • Conhecer as regras de orientação dos fragmentos na inclusão (tubulares, epiteliais, císticos, vários fragmentos).
  • Saber em que contexto usar cortes de congelação e descalcificação.



Sans titre

1. Objetivo final da técnica histológica

O objetivo final é levar ao microscópio ótico (m.o.) uma amostra em que:

  • Os tecidos estão preservados.
  • Mantêm a mesma arquitetura que apresentavam in vivo.
  • Mantêm, tanto quanto possível, a mesma composição química in vivo.
Quando a imagem não é equivalente à real → trata-se de um artefacto, exigindo interpretação cuidadosa.

2. Fixação – conceito geral

  • fixação é a primeira fase do processamento histológico.
  • É uma fase de preparação para as etapas seguintes (desidratação, diafanização, inclusão).
  • Envolve uma série complexa de eventos químicos, diferente para cada tipo de substância presente nos tecidos.

Função-chave:

Interromper a degradação orgânica (vida → morte → decomposição), de modo a:

  • Prevenir autólise e putrefação.
  • Conservar arquitetura e composição tecidular.
  • Garantir que a imagem histológica é equivalente à real.

Tecidos mais sensíveis:

  • Tecidos ricos em enzimas → fígado, rins, cérebro, pâncreas, etc.

3. Fenómenos de degradação pós-morte

3.1. Definição de morte

  • Nível metabólico a partir do qual as células não conseguem recuperar as funções vitais.

3.2. Autólise

  • Autodigestão enzimática celular, após a morte.
  • Envolve rutura da membrana dos lisossomas e saída das enzimas para o citoplasma.

Aspeto microscópico (M.O.):

  • Citoplasma tumefeito, com aspeto de massa granular homogénea.
  • Citoplasma incapaz de ser corado (“washed-out”).
  • Difusão de substâncias intracelulares importantes (ex.: glicogénio).
  • Separação (“descamação”) entre epitélio e membrana basal.

3.3. Putrefação

  • Degradação dos tecidos por toxinas e enzimas bacterianas.
  • Bactérias geralmente saprófitas.
  • Complementa o efeito da autólise até destruição celular completa.

3.4. Fatores que influenciam autólise e putrefação

  • Localização e natureza do tecido:
  • Tecidos com muitas enzimas digestivas → ex.: pâncreas.
  • Tecidos com grande quantidade de microrganismos → ex.: intestino.
  • Temperatura:
  • Quanto maior a temperatura ambiente, maior a velocidade de autólise e putrefação.
  • Temperatura ótima para atividade enzimática e bacteriana: 37–42 ºC.

4. Objetivos da fixação tecidular

A fixação tem como objetivos principais:

  1. Prevenir a autólise (inativar enzimas celulares).
  2. Prevenir a contaminação bacteriana (efeito microbicida).
  3. Evitar alterações de forma e volume durante o processamento (retrações, distorções).
  4. Permitir coloração adequada dos cortes histológicos.
  5. Manter os tecidos o mais semelhante possível ao estado “in vivo”, sem perdas ou rearranjos importantes dos seus componentes (incluindo lípidos – exigem precauções especiais).
É sempre um compromisso: fixar bem, mas sem alterar demasiado a morfologia.

5. Princípios gerais da fixação

  1. Não existe método universal de fixação
  • Um fixador adequado para um tecido pode não ser para outro.
  1. Fixação ≠ conservação tecidular eterna
  • Nem todos os fixadores conservam o tecido indefinidamente.
  • O formol é, além de fixador, também um bom conservante.
  1. Defeitos de fixação dificilmente são corrigidos
  • Uma má fixação acompanha todo o processo.
  1. Graves defeitos na fixação podem inviabilizar o estudo histológico
  2. → comprometem o diagnóstico.

6. Fixação tecidular – componente proteico

  • As proteínas estruturais, quando fixadas, tornam-se insolúveis, conferindo:
  • Consistência mecânica ao tecido.
  • Condições para suportar o processamento seguinte (desidratação, corte, etc.).
  • A microanatomia dos tecidos mantém-se, permitindo o diagnóstico histopatológico.

7. Classificação da fixação – mecanismos de atuação

7.1. Fixação física

Objetivo: deter autólise e putrefação sem reagentes químicos, através de alterações físicas.

  • Calor
  • Congelação
  • Micro-ondas

Congelação

  • Ideal para estudos morfológicos e funcionais, porque preserva:
  • Estrutura antigénica
  • Atividade enzimática
  • Deve ser instantânea para evitar formação de microcristais de gelo intracelular (que destroem a estrutura).
  • Métodos:
  • Azoto líquido
  • Usado para biópsias e material para extração de DNA.
  • Não é o mais adequado para cortes histológicos de rotina.
  • Isopentano a -50 ºC
  • Fragmentos até cerca de 3 cm² / 3 mm de espessura
  • Congelação muito rápida (~10 segundos).
  • Conservação em arcas a –70 ºC.

7.2. Fixação química

Objetivo: desnaturar e insolubilizar proteínas tecidulares, bloqueando:

  • Autólise (por inativação enzimática).
  • Crescimento bacteriano.

Características fundamentais de um bom fixador químico:

  1. Capacidade de bloquear de imediato a autólise (rápida desnaturação proteica).
  2. Efeito microbicida eficaz.
  3. Evitar retrações e distorções que alterem a arquitetura.
  4. Provocar alterações que favoreçam inclusão, corte e coloração.

8. Regras gerais para utilização de fixadores líquidos

  • Colocar o tecido no líquido fixador o mais rapidamente possível após a colheita.
  • Fragmentos de tecido com cerca de 2–3 mm, para permitir rápida difusão.
  • Volume do fixador: cerca de 10 vezes o volume do fragmento.
  • Pressão osmótica do fixador ≈ do tecido (geralmente com soluções salinas equilibradas).
  • pH do fixador deve aproximar-se do pH fisiológico (neutro), exceto quando se usam fixadores ácidos específicos.
  • Tempo de fixação é específico para cada fixador; o tempo máximo não deve ser ultrapassado.

9. Fixadores químicos em Anatomia Patológica – aldeídos

9.1. Formaldeído (formol 10% tamponado)

  • Fixador mais utilizado na histologia convencional de microscopia ótica (parafina, coloração H&E).
  • Fixador mais barato e amplamente disponível.
  • Único fixador que proporciona conservação tecidular adequada a longo prazo.
  • Não endurece excessivamente os tecidos → bom para armazenar biópsias e peças cirúrgicas.
  • Provoca retracção tecidular reduzida.
  • Velocidade de penetração intermédia: cerca de 1 mm/hora → adequado para peças cirúrgicas.
  • Fixador adequado para tecido adiposo e lípidos em geral.
  • Compatível com a maioria das colorações de rotina e especiais.

Influência da temperatura:

  • A velocidade de fixação por formol pode ser:
  • Atrasada ou
  • Acelerada
  • pela temperatura (mais quente → mais rápida, mas com maior risco de artefactos).

Tempo de fixação completo a temperatura ambiente (RT):

  • Aproximadamente 36 horas.

Importância imunohistoquímica:

  • A fixação em formol 10% tamponado faz-se através de ligações cruzadas entre proteínas, mantendo os constituintes celulares nas suas relações “in vivo”.
  • antigenicidade não se perde completamente, o que é essencial para:
  • Métodos imunoenzimáticos
  • Imunofluorescência

Desvantagens do formaldeído

  • Irritação severa da pele e dos olhos.
  • Sensibilização por contacto respiratório e cutâneo.
  • Necessidade de:
  • Monitorização periódica dos níveis de exposição.
  • Ventilação e exaustão adequadas.
  • Sistema de esgoto adequado ou soluções comerciais para eliminação segura.
  • Pode promover aparecimento de pigmentos formólicos (artefactos de fixação).

10. Artefactos de fixação

Definição:

  • Imagens que não são equivalentes à realidade e são induzidas ao longo do processamento histológico, repetindo-se em preparações diferentes.

Principais tipos:

  1. Rupturas
  2. Retracções tecidulares
  • Provocadas por graus diferentes de retração dentro do mesmo fragmento ao ser exposto ao fixador.
  • Devidas, em grande parte, às diferenças de proporção de água existentes entre tecidos.
  • Também relacionadas com diferenças de pressão osmótica entre o fixador e o tecido.
  1. Pigmentos formólicos
  • Depósitos pigmentados, geralmente castanhos, resultantes da ação do formol em determinadas condições.
  1. Artefactos mecânicos e de superfície (visíveis nas imagens da apresentação):
  • “Split artifact”: fendas ou separação de camadas (ex.: intestino).
  • Pigmentação de superfície por reagentes (ex.: marcação de margens com nitrato de prata, tinta da china).
  • Riscos (scratch lines) causados por faca danificada.
  • Dobras, pregas ou cortes rasgados por má extensão.
  • Contaminação por tecido de outro doente (fragmentos estranhos na lâmina).
Saber reconhecer artefactos é importante para não os confundir com lesões patológicas verdadeiras.

11. Descalcificação

  • Tecido com depósitos de cálcio (por exemplo osso) não pode ser cortado em bloco de parafina antes de remover o cálcio.

11.1. Métodos

  • A técnica mais comum é a utilização de ácidos, por exemplo:
  • Ácido nítrico
  • → Remove rapidamente grandes quantidades de cálcio.
  • Tecidos mais frágeis (ex.: medula óssea) devem ser descalcificados com:
  • Líquido de Bouin, que atua simultaneamente como fixador e descalcificador, sendo mais suave.

12. Processamento histológico de tecidos

Objetivo geral:

  • Elaborar cortes histológicos finos para observação microscópica.
  • Os tecidos são impregnados em parafina, com densidade semelhante à do tecido, permitindo cortes de rotina com espessura de 3 µm.

12.1. Etapas principais

  1. Desidratação
  • Remoção gradual da água dos tecidos.
  • Feita com uma série crescente de álcoois:
  • 70% → 95% → 100%.
  1. Clarificação / diafanização
  • Substituição do álcool por um solvente miscível com parafina, normalmente xilol, que torna o tecido translúcido.
  1. Impregnação
  • O tecido é embebido no agente impregnante → parafina.
  • Parafina utilizada geralmente com ponto de fusão 58–60 ºC.

12.2. Processadores de tecidos

  • O processamento pode ser:
  • Manual (em séries de cubas).
  • Automático (processadores de tecidos: programam todos os passos).

Consequências de processamento inadequado:

  • Área central esbranquiçada e insuficientemente endurecida no bloco:
  • Possíveis causas:
  • Tecido insuficientemente desidratado ou diafanizado.
  • Impregnação com parafina insuficiente.
  • Consequência: o bloco não poderá ser cortado corretamente.

13. Inclusão em parafina

Depois da impregnação:

  • Os fragmentos são incluídos em moldes com parafina, formando blocos de parafina.

13.1. Aparelho de inclusão

  • Possui:
  • Zona de parafina líquida.
  • Moldes.
  • Zona aquecida para orientar o fragmento.
  • Superfícies frias para solidificação rápida.

13.2. Orientação dos fragmentos – princípios gerais

  • Os fragmentos impregnados devem ser incluídos em posição adequada ao tipo de corte desejado.
  • Ter em conta que a parte inferior do bloco será a superfície de corte.
  • A posição ideal deve ser determinada antes do processamento, podendo marcar-se a superfície oposta com tinta da china.
  • O fragmento deve ser incluído ao mesmo nível, para garantir corte completo.
  • Usa-se pinça para o pressionar contra a superfície do molde (com cuidado para não danificar o tecido).

13.3. Regras específicas de orientação

  • Parte menos dura e mais pequena do tecido deve ser cortada em primeiro lugar
  • → evita compressão dos tecidos duros sobre os brandos, reduzindo rugas.
  • Deve haver uma margem de parafina à volta de todo o fragmento, para melhor suporte no bloco e durante o corte.

Estruturas tubulares

  • Ex.: artérias, veias, canais deferentes, trompas de Falópio.
  • Devem ser incluídas verticalmente, de modo que o corte atravesse toda a parede.

Tecidos com superfície epitelial

  • Ex.: pele, intestino, bexiga, útero.
  • Devem ser colocados de forma que o plano de corte atravesse todas as camadas e a superfície epitelial seja cortada por último (no topo), para:
  • Minimizar a pressão e distorção na camada epitelial.

Múltiplos fragmentos epiteliais

  • Devem ser incluídos lado a lado, com a mesma orientação da superfície epitelial.
  • Podem ser marcados com tinta da china ou eosina alcoólica para identificação de margens.

Vários fragmentos em geral

  • Devem ser incluídos lado a lado, com espaço entre eles, facilitando:
  • Observação.
  • Organização da lâmina.

Fragmentos pequenos retangulares

  • Devem ser orientados de forma que o eixo mais longo fique perpendicular à faca:
  • Minimiza distorção e enrugamento.

Estruturas císticas

  • Devem ser incluídas de modo que a superfície de corte fique para baixo, para que o corte atravesse todas as camadas da parede cística.
Conclusão: os fragmentos devem ser alinhados e corretamente orientados no bloco – isto é fundamental para a qualidade dos cortes.

14. Microtomia – secções histológicas

  • Com o micrótomo, os blocos são cortados em secções finas, normalmente de 3 µm.

14.1. Etapas da microtomia

  1. Desbaste do bloco
  • Retira o excesso de parafina até expor o tecido.
  1. Corte histológico
  • Produção de fitas de secções com espessura uniforme.
  1. Extensão
  • Colocação das secções numa tina com água fria para eliminar pregas.
  • Depois, transferência para água morna (banho de água) para melhor extensão.
  1. Secagem
  • As secções estendidas na lâmina são colocadas em estufa a ~60ºC, cerca de 20 minutos, para:
  • Derreter a parafina residual.
  • Promover melhor aderência do tecido à lâmina.

14.2. Procedimentos complementares

  • Identificação da lâmina com o número histológico.
  • Limpeza do banho de água para evitar:
  • Contaminação entre casos.
  • Inclusão de fragmentos estranhos.

14.3. Artefactos associados à microtomia

  • Faca danificada → riscos no tecido.
  • Má extensão → dobras, cortes enrugados, descolamento de tecido.
  • Desidratação ou fixação incorreta → cortes quebradiços, rasgados.
  • Contaminação de lâminas com tecido de outro doente.

15. Cortes de congelação

  • Usados para diagnóstico rápido (extemporâneo, intraoperatório).

15.1. Procedimento

  1. Fragmento é colocado num suporte com meio sintético (ex.: meio de congelação).
  2. É congelado rapidamente (ex.: em crióstato).
  3. O fragmento é cortado no crióstato.
  4. Os cortes são apanhados em lâmina de vidro por aderência.
  5. São fixados em álcool a 95%.
  6. Ficam prontos para coloração e avaliação rápida.

16. Pontos-chave para o teste

  • Saber definir:
  • Fixação
  • Autólise
  • Putrefação
  • Processamento histológico
  • Saber objetivos da fixação e princípios gerais (4 pontos).
  • Decorar as regras de uso do fixador líquido (tamanho do fragmento, volume 10x, pH, osmolaridade, tempo).
  • Dominar as características do formol 10% tamponado (vantagens, desvantagens, penetração, tempo, toxicidade).
  • Perceber o mecanismo de formação de artefactos e ser capaz de os reconhecer.
  • Saber descrever as etapas do processamento: desidratação → diafanização → impregnação → inclusão → microtomia.
  • Conhecer as regras de orientação dos fragmentos na inclusão (tubulares, epiteliais, císticos, vários fragmentos).
  • Saber em que contexto usar cortes de congelação e descalcificação.